Domingo, 25 de Maio de 2014

UTSM - 2014

“NUNCA DIGAS NUNCA MAIS. Cá estou pronto de novo para a Grande Aventura. Quando acordarem já devem ter mais notícias minhas. Aqui vou eu".

 

Foi assim que me dirigi aos meus companheiros e familiares na ante-câmara da partida para a edição de 2014 do Ultra Trail de S. Mamede. Como já referi anteriormente, nem sempre devem ser levadas a sério as minhas palavras quando proferidas em momentos de desespero. Quando terminei a minha primeira participação nos Trilhos do Almourol, após ter terminado a estreia na Ultra Maratona Atlântica Melides Tróia, e  quando estava a concluir o último percurso do Ultra Trail de S. Mamede em 2013, afirmei que não mais voltaria a estas aventuras. O certo é que fui reincidente. Nem sempre a razão leva a melhor sobre o coração. Por isso, apesar de ter pensado nisso durante a corrida, não vou afirmar que não mais voltarei à prova de Portalegre.

 

Em resposta à minha despedida momentos antes da partida recebi várias mensagens de apoio que, mesmo à distância, muito me animaram para vencer mais este obstáculo:

  • Força Nessa Corrida. A única em que se pode abrir a excepção ao “tem  de ser sempre a correr”. Disfruta, diverte-te. Muita força e coragem, aquela que sempre nos ensinaste. Um beijo.
  • Boa Sorte
  • Força Tartaruga mas também juízo. Vamos todos correr contigo mesmo quando estivermos a dormir
  • Qualquer que seja o resultado já é o nosso campeão. Boa Sorte
  • Força Pai. Boa sorte para a corrida. Amanhã encontramo-nos a meio da prova. És o nosso herói.
  • Força Tartaruga

Se tivesse algumas dúvidas quanto à minha motivação para levar de vencida este desafio elas ficaram definitivamente desfeitas com todo este apoio.

 

A animação é sempre a mesma. Os atletas demonstram, sem o quererem, algum nervosismo. Chegam cedo demais a Portalegre. E para evitarem confusões de última hora apressam-se para levantarem o seu “kit” de participante.

Alguns optam por se equiparem com toda a calma do mundo num dos vários balneários disponíveis.noite, optam por se equiparem junto às viaturas que os levaram até à capital deste distrito do Norte Alentejano. Temos de entragar as mochilas com a roupa de substituição que nos chegará a Marvão. Há também que passar pelo controlo do equipamento mínimo obrigatório. Como tudo isto foi feito com tempo, aliás até nem parece que estamos em Portugal, temos ainda perto de meia hora para conviver com todos os outros atletas.

 

Encontrar caras conhecidas deste e de outros eventos é fundamental. “Marcar o ponto” numa prova que, apesar de recente, já é uma clássica no calendário do Trail. Com o aliciante da edição deste ano ser simultaneamente o Campeonato de Portugal Ultra Trail. Por isso a adesão foi muito maior.

À meia-noite em ponto é dado o início das “festividades”. Aqueles que lutam por uma boa classificação desaparecem do meio da escuridão, apesar do luar presente. Ficam os que têm unicamente como objectivo a diversão e passarem uma boa noite, a correr ou a andar, algures nas entranhas da Serra de São Mamede.

 

Devido à maior afluência de atletas este ano, logo no primeiro estrangulamento concluímos que o traçado não teve em conta este aumento de participantes. A primeira descida mais técnica obriga a um longo período de paragem.

O mesmo se passará mais à frente nas passagens pela ribeira. Com um início um pouco diferente chegamos ao PAC2 localizado em Alegrete já com um atraso significativo relativamente a 2013. No meu caso particular foram mais de trinta minutos de atraso. Obrigatoriamente teria, daí para a frente, que anular esta diferença caso pretendesse, como era meu propósito, melhorar o tempo do ano passado e chegar à meta, se possível, ainda de dia.

 

As condições climatéricas deste ano, apesar do susto de um aviso de última hora, apontavam para um tempo bem mais convidativo com uma previsão de temperatura bem acima dos dois graus positivos que nos receberam no ano passado no Posto de Abastecimento e Controlo das Antenas. A grande maioria dos atletas arrancou só em calções e camisola de manga curta. Só quando a madrugada já ia bem alta, por volta das quatro e meia da manhã, é que tive de recorrer a um corta-vento que transportava na minha mochila.

 

Pelo meio ficaram alguns episódios engraçados. Quando tivémos de ultrapassar um pequeno muro divisório de uma propriedade, e com arame farpado à mistura, tive mesmo que ajudar a eterna e sempre presente Analice já que revelava algum medo em saltar de um metro de altura. Como a minha mão não era suficientemente segura, dado que o medo era maior do que a vontade, optei por a colocar às minhas “cavalitas” e assim a depositar em solo firme e poder calmamente continuar a corrida. Desfez-se em agradecimentos respondendo-lhe eu que este é o verdadeiro espírito das corridas de Trail.

A prova estava, pelo menos para mim, a correr bastante bem. Os troços que fazia a correr eram em maior quantidade do que em 2013. Parecia assim que poderia recuperar do atraso inicial e manter de pé o meu objectivo. Por volta dos vinte e oito quilómetros estava reservada a maior surpresa de toda a corrida. Uma subida íngreme, longa e cujo piso era formado por pedras soltas, que, para quem não transportava consigo bastões quase que tinha de andar de gatas. Em consequência em vez de diminuir aumentou drasticamente o meu atraso. No meu caso cheguei às antenas cerca de uma hora mais tarde do que em 2013.

O dia já começava a dar os primeiros sinais pelo que deixou de ser necessário manter a luz frontal acesa. A partir deste ponto o tempo arrefeceu bastante pelo que dei por grande utilidade o casaco que trazia vestido.

 

Com as primeiras descidas surgem as minhas maiores preocupações. Como no ano passado terminei a prova com os pés em muito mau estado optei por correr com dois pares de meias. Com o cansaço acumulado, e com o aumento da temperatura, começou o meu grande calvário. Cada vez corria com mais dificuldade, e havia até momentos em que, mesmo a andar, tinha alguma dificuldade em prosseguir. Muscular e fisicamente sentia-me muito bem. Só os pés é que me atormentavam e me deixavam algumas reservas para o que ainda faltava. Pouco depois das oito horas da manhã atinjo o PAC 4 em S. Julião. O facto de atravessar uma pequena e refrescante ribeira deram algum descanso e sensação de alívio aos meus queridos e doridos “presuntos”. Foi com algum ânimo que me sentia refeito e até enviei nova mensagem aos meus amigos e família: ”Bom Dia. Acabei de passar uma ribeira. Foi bom para arrefecer os pés. Isto está muito difícil”.

Após alguns minutos de repouso, aproveitados para ingerir alguns alimentos sólidos e líquidos, ataco uma longa subida com cerca de seis quilómetros de extensão. A dificuldade não era grande. Mas, após o seu término e começar a descer, começo a empreender que só grande sacrifício é que terminaria a prova. Começam as contas de cabeça e começa a pairar o fantasma da desistência. Vinha-me à memória uma mensagem que enviei em 2013 antes de começar o UTSM em que eu afirmei “desistir nunca”. Mas, como me dizia o Frederico, pensa bem e toma a decisão correcta. O Carlos Catela também procurava animar-me via SMS: “Força Tartaruga. Tenta apanhar uma Lebre que te guie”. Apoio não me faltava…

A certa altura passo a ocupar definitivamente o último lugar com o “carro vassoura” bem à minha ilharga.

Pensei muito no que iria fazer dali para a frente. A minha meta principal era chegar a Marvão, lavar bem os pés e trocar de roupa. Podia ser que os meus membros inferiores recuperassem. E depois seria uma corria para ser levada PAC a PAC. Sabia que em Marvão já tinha para pela frente menos do que já tinha percorrido o que seria, sem dúvida, um tónico suplementar.

 

Já depois do Posto de Abastecimento e Controlo de Porto da Espada, chego tristemente à conclusão que os meus pés, de tão comprimidos que estavam, queriam recusar-se a andar mais. A minha decisão de calçar duas meias revelava-se catastrófica. Qualquer decisão é sempre boa desde que tomada em consciência. E sempre é melhor uma má decisão do que uma NÃO DECISÃO. Junto à estrada, e antes de começar a sucessão de subidas até ao Castelo de Marvão, opto por me libertar de um par de meias. Finalmente os pés encontravam algum espaço de liberdade. Com a passagem por mais uma ribeira volto a acreditar que afinal era possível terminar a corrida. Seria antes da meia-noite? O que interessava era terminar.

 

Antes de atacar a derradeira escalada para o Castelo, ao calcorrear alguns quilómetros em empedrado na companhia de dois elementos da organização, concluo que o mais acertado seria ficar por Marvão. Tomo a mais difícil decisão de toda a minha carreira desportiva ao optar por ficar por ali. Aliás mesmo que quisesse continuar já não me deixavam pois iria chegar ao PAC6 já depois das catorze horas, hora limite para que qualquer atleta pudesse continuar em prova. Assim até nem me custou tanto. E mais atletas aguardavam pelo transporte de regresso ao Estádio dos Assentos.

Terminou assim sem grande glória a minha participação no Ultra Trail de São Mamede. E pensei mesmo que não mais voltaria. Tal como no “Princípio de Peter” a minha participação em determinadas provas como esta, e também como a Ultra Maratona Melides Tróia, está para além dos meus limites. Passados alguns dias já não penso assim.

 

Tempos e classificações não há, pelo menos para mim. Mas também já fui desafiado pelos meus colegas para fazermos em conjunto no próximo ano pelo menos as etapas da noite. Veremos o que nos reserva o futuro. Até 31 de Dezembro ainda temos muito tempo pela frente.

 

E termino esta crónica como começei: "NUNCA DIGAS NUNCA MAIS".

 

Atletas que concluiram a prova: 430

Vencedor: HÉLDER FERREIRA (União FCI Tomar): 10:17:48

 

Calendário para o Mês de Maio 

 

  • 1 - Corrida do 1º de Maio (Lisboa) - 15 Km
  • 11 - Trail Castelo de Abrantes - 15 Km => Frederico e Carlos Gonçalves
  • 11 - Meia Maratona de Setúbal - 21,0975 Km => Carlos Teixeira
  • 17 - Ultra Trail de S. Mamede (Portalegre) - 100 Km
  • 17 - BES Run Challenge (Costa de Caparica) - 10 Km => Carlos Teixeira e Frederico
  • 25 - Corrida do Guincho/Entre Serra e Mar - 12 Km

 

publicado por Carlos M Gonçalves às 18:40

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