Terça-feira, 11 de Abril de 2017

TRILHOS DO ALMOUROL

“ Quando a cabeça não tem juízo, quando te esforças mais do que é preciso, o corpo é que paga”…

 

Seis da manhã. A ainda recente mudança da hora faz com que, a esta hora, o céu se apresente completamente escuro sem qualquer indício do amanhecer que aí vem. Apenas as estrelas quebram a monotonia dando algum brilho ao nosso “tecto” natural.

 

E também não se vê vivalma. Não é de todo estranho dado que estamos numa madrugada de Sábado para Domingo com a esmagadora maioria das pessoas ainda a dormir, a recuperar das energias gastas durante a semana. Mas duas criaturas já estão de pé e encontram-se algures na zona do Bairro do Restelo para partirem para o Entroncamento. Espera-nos mais uma edição dos Trilhos do Almourol, prova emblemática e que detém um lugar de destaque na nossa Galeria de Honra em termos de provas de “Trail”. O Frederico esteve até à última hora a avaliar a sua lesão no tendão de aquiles fazendo tudo para se convencer que reunia as condições mínimas para desafiar os cerca de 26 quilómetros para os quais se tinha inscrito. O seu colega de equipa, Carlos Gonçalves, estava pronto para, uma vez mais, se abalançar à prova da Maratona com todos os riscos e dificuldades desta distância mas em regime de trilhos. Facilidades era exactamente aquilo que estes dois Tartarugas menos esperavam. E vieram a confirmar-se, uma vez mais, as suas expectativas.

 

Não havia tempo a perder. Tínhamos de chegar ao Entroncamento com alguma margem de manobra para as tarefas habituais. A edição deste ano foi totalmente renovada. Todos os participantes, fossem eles do Trail, da Maratona Trail ou da Caminhada, iriam partir em conjunto cumprindo um curto trajecto a pé até à Estação Ferroviária do Entroncamento, onde nos aguardava um comboio só para nós, e que nos levaria até ao local da partida.

 

Mal iniciámos a nossa viagem a partir de Lisboa encontramos mais uma pessoa que se encontrava a pé aquela hora. Mas, ao contrário de nós, “ainda” estava acordada, aparentando estar a regressar a casa após uma noite, pensámos nós, bem passada e melhor divertida. Cada um com as suas opções.

 

Uma hora e picos depois chegamos ao Pavilhão Gimnodesportivo do Entroncamento. Lá dentro encontramos o frenesim habitual com atletas e elementos da organização a cruzarem-se e a cumprimentarem-se mutuamente. A recolha dos dorsais, e demais brindes com que a organização habitualmente nos presenteia, é a tarefa prioritária dos primeiros. Os segundos organizam-se para que nada falte e tudo funcione dentro das expectativas e do seu compromisso assumido com os vários participantes.

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A cada minuto que passa chegam mais viaturas com atletas que se vêm juntar aos que, pacatamente, finalizam o seu equipamento e tiram as primeiras fotos do dia.

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Um pouco atrasado relativamente ao estipulado, o comboio parte finalmente em direcção ao Castelo do Almourol. Apesar da grande animação reinante os nossos dois atletas conseguem “passar pelas brasas” e recuperarem algum do sono que ficou em falta. Se é que realmente conseguem recuperar as horas não dormidas. Deixamos o comboio e temos de andar, em regime de aquecimento, algumas centenas de metros que medeiam entre a estação ferroviária e o local da partida. Feito o “controlo zero” pedimos a outro atleta para nos tirar a fotografia da ordem com o Castelo de Almourol como pano de fundo.

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Imediatamente esta foto vai “cair” no WhatsApp informando os nossos seguidores de que estamos prontos para mais uma aventura. Um breve “briefing”, só ouvido por quem estava perto do “speaker”, transmite as habituais e úteis informações sobre as diferentes provas. De antemão já sabíamos que em 2017 o percurso seria totalmente renovado. Pelo menos para a Maratona Trail.

 

Os primeiros quilómetros são comuns às duas corridas, o que causou alguns “atritos” entre os Trailistas, mais rápidos, e os Maratonistas. Esta fase inicial é composta por alguns “single treks” ao longo dos quais não há qualquer espaço para ultrapassagens. O que enervou ainda mais os primeiros corredores da prova mais curta. Queriam ultrapassar, a todo o custo, os que iam num ritmo mais lento. Alguns empurrões num “chega para lá que eu quero ir mais depressa”. E até ouvimos alguns comentários mais desagradáveis do género “ parecem Caminheiros” de tão devagar que vão. Aqui fica um reparo, ou talvez uma sugestão para a Organização, para que no futuro introduza uma maior diferença de tempo entre a partida das duas Corridas. Feita a separação, “26 Km para a esquerda e maratona para a direita”, acabam-se definitivamente estes conflitos pontuais.

 

Relativamente à prova da Maratona a mesma foi feita em sentido contrário da dos anos anteriores. Muito bela e a desenrolar-se ao longo dos rios Tejo, Zêzere e Nabão. E, a fazer jus ao princípio das edições anteriores, a primeira metade da corrida será inevitavelmente a mais exigente. Exigente no que ao desnível diz respeito mas sobretudo em termos de dificuldade técnica. E desta vez não tivemos a travessia do Rio Nabão através daquela ponte militar assente em barcaças.

 

Por volta dos dezoito quilómetros sentimos que o pior ficou para trás. É nesta altura que o nosso Maratonista começa a debater-se com os primeiros alertas de fadiga muscular. Se calhar começou a pagar cedo demais uma factura pela andamento mais rápido que imprimiu nos primeiros quilómetros.

O percurso que temos pela frente começa a parecer mais fácil. Mas, atenção, que facilidade é uma palavra que dificilmente se aplica aos Trilhos do Almourol.

 

Ainda antes de ter completado a vintena de quilómetros, recebemos a mensagem do nosso tartaruga estradista informando a equipa, e seguidores, que tinha terminado a sua prestação na Corrida dos Sinos. “E eu anda vou a meio. Faltam cerca de 21 km. Até tenho tempo para responder”. O Carlos Gonçalves, num momento de maior descontracção, responde às mensagens que lhe vão caindo no seu telemóvel. Só o Catela, e outros seguidores que ficaram em casa, é que vão respondendo. “Estás à espera da Vassoureira? Não pois nesta prova é um Vassoureiro.” A conversa termina por aqui com um lacónico “Agora tenho de dar corda aos sapatos”.

 

Enquanto o Carlos Gonçalves vai cumprindo os quilómetros, o Frederico dá sinais de si. “Acabei”. E aproveita também para colocar no WhatsApp um vídeo a emborcar uma mini no abastecimento dos 20K.

 

 “Enlouqueci”, é a sua legenda. “Tu não enlouqueceste!!! Tu és louco"!! Responde-lhe o Carlos Teixeira. Aliás loucuras como esta nunca acontecem durante uma prova de estrada, seja qual for a distância.

 

A partir deste momento fica a aguardar por notícias do seu companheiro de aventuras em provas de trilhos.

 

Integrado num grupo de duas + dois atletas o Tartaruga Maratonista lá vai cumprindo, como pode, os quilómetros que lhe restam.

 

Com menos de seis mil metros para o fim o cansaço e a fadiga muscular, bem perto da exuastão, começam a apoderar-se deste corredor solitário. Sabendo que o mais difícil já ficou para trás, nem por isso espera facilidades. As cãibras começam a revelar-se o seu maior obstáculo. E nem as pastilhas ISOSTAR, ricas em Magnésio, amenizam as suas dificuldades. É exactamente neste ponto que as palavras da canção do António Variações, citadas no início desta crónica, parecem fazer todo o sentido.

Quando faltam menos de dois quilómetros para a meta surge a “fantasmagórica” figura do atleta vassoura. Se ainda fosse uma “Vassoura” como na Barreira??? As últimas centenas de metros, apesar de já conhecidas, parecem eternas.

 

Mas temos de terminar com a maior dignidade. Aliás, mesmo em último lugar, cumpriu-se o principal objectivo deste atleta. Terminar mais uma Maratona dos Trilhos do Almourol, divertir-se e desfrutar ao máximo esta aventura. E, segundo este ponto de vista, foi mais uma experiência amplamente cumprida.

 

Junto à Meta o Frederico aguardava pacientemente pela chegada do seu companheiro de luta. “Chegou. Mais uma maratona nas pernas”.

 

De regresso a Lisboa os dois atletas vão relatando as suas experiências. Tanto um como outro mais uma vez que “simplesmente adoraram”. O Carlos Gonçalves começa a dizer que tem de reequacionar no futuro a prova dos Trilhos do Almourol pela qual irá optar. Se calhar a modalidade dos 26 quilómetros talvez seja a mais adequada e mais sensata. O Frederico recorda as palavras do companheiro noutras situações e que, no final, acaba por ceder às suas tentações.

 

Ponto Final. Os Trilhos do Almourol continuam a ser uma das nossas maiores paixões. E por aqui nos iremos manter fiéis nos próximos anos. Mas será que alguma vez conseguiremos desviar da Corrida dos Sinos o nosso companheiro Carlos Teixeira? Esta é, seguramente, a nossa maior incógnita.

 

Até 2018.

 

RESULTADOS FINAIS DA MARATONA TRAIL

 

Atletas que concluiram a prova: 175

Vencedor: LUÍS FERNANDES (U.F.Comércio e Indústria Atletismo): 3:41:13

 

CARLOS GONÇALVES  (Dorsal Nº64)

 

Classificação Geral: 174º - Classificação no Escalão M60: 9º

Tempo Oficial: 8:25:04

 Tempo médio/Km: 12m:02s  <=> Velocidade média: 4,99Km/h (*)

 

RESULTADOS FINAIS DO TRAIL

 

Atletas que concluiram a prova: 371

Vencedor: LUÍS SEMEDO (AC Portalegre/UTSM): 1:55:15

 

FREDERICO SOUSA (Dorsal Nº595)

Classificação Geral: 333º - Classificação no Escalão M50: 33ª

Tempo Oficial: 4:39:02

Tempo médio/Km: 10m:44s  <=> Velocidade média: 5,59Km/h (*)

 

(*) - O Tempo médio/Km e a Velocidade média foram calculados em função dos tempos cronometrados (tempo do chip)

 

Calendário do Mês de Abril

  • 2 - Corrida dos Sinos (Mafra) - 15 Km
  • 2 - Trilhos do Almourol (Almourol/Entroncamento)
    • Maratona Trail - 42 Km
    • Trail - 26 Km
  • 9 - Cork Trail (Coruche) - 23 Km
  • 9 - Corrida do Benfica (Lisboa) - 10 Km
  • 23 - Estafeta Cascais /Lisboa - 20 Km
publicado por Carlos M Gonçalves às 22:57

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