Domingo, 10 de Abril de 2016

TRILHOS DO ALMOUROL

Os Trilhos do Almourol reinventaram-se. Se comparar com as quatro últimas edições registei, com algum agrado, que grande parte do percurso foi novo. Não consigo quantificar se foram dois terços, quatro quintos, ou qualquer outra percentagem. O certo é que a maioria do trajecto foi substancialmente renovada relativamente aos anos anteriores. Não tendo perdido a dureza e a multiplicidade dos desafios que nos iam sendo propostos à medida que íamos avançando na prova, manteve-se a beleza e o interesse numa corrida que, pelo menos ma minha humilde opinião, é uma das mais interessantes corridas da modalidade de “Trail”. É, portanto, uma prova a não perder. Os Trilhos do Almourol pertencem ao núcleo restrito das corridas em que por nada deste mundo quero deixar de estar presente.

 

Após se ter iniciado o período normal de inscrições desafiei logo o Frederico, meu companheiro de sempre nestas aventuras um pouco mais malucas, a marcarmos presença nos Trilhos do Almourol. Em 2016 a nossa comitiva via-se substancialmente reduzida sem qualquer acompanhante na Caminhada. Mas nós não desistimos. Mesmo em cima da hora, uns dias antes, o Frederico avisa-me que não me poderá acompanhar até ao Entroncamento dado que tinha contraído uma pequena mas arreliadora lesão que o aconselhava a não enfrentar uma corrida que, apesar de bela, oferece uma dureza pouco aconselhável ao seu estado. Tudo bem. Lá teria eu de ir sozinho até aquelas paragens.

 

Em 2015 vi-me forçado a abandonar os Trilhos do Almourol devido a um forte ataque de cãibras, conforme referi na crónica de então. Assim tinha logo decidido que estava obrigado a desafiar novamente a Maratona Trail dos Trilhos do Almourol e provar a mim mesmo que o tinha acontecido no ano passado foi a excepção que confirma a regra.

 

Às sete e dez da manhã de Domingo partia eu de minha casa em direcção ao Entroncamento. Tinha pela frente uma viagem com um pouco mais de uma hora de duração. Sabia que às 8 e 50 partiria o meu autocarro que me levaria até ao ponto de partida. Mas como não era uma estreante nesta prova sabia que tinha tudo controlado. Cheguei a tempo de levantar o dorsal e de me preparar convenientemente para uma prova que se antevia, algo que eu já sabia, dura.

 

A animação é uma das imagens de marca das corridas. Ainda por cima havia atletas para tudo. Desde a Caminhada até à Maratona Trail, passando pelo Trail 25K, várias centenas de pessoas conferiam uma animação pouco habitual para uma manhã de domingo que, apesar de já termos entrado na primavera, mais parecia de Novembro. A temperatura era baixa e as previsões apontavam para o aparecimento da chuva. Mas “quem corre por gosto não cansa”, lá diz o ditado. E é bem verdade.

 

Já dentro do autocarro recebo um telefonema do Carlos Teixeira que iria participar em Mafra na Corrida dos Sinos. Procuro aconchegar-me e aproveitar para dormir um pouco. Desde a zona do Pavilhão Desportivo do Entroncamento até ao Parque de Campismo de Martinchel teria pelo menos uns vinte minutinhos durante os quais poderia recuperar algum do sono perdido na noite anterior. Mas a animação dentro do autocarro, principalmente vinda de um atleta mais esfusiante sentado no banco mesmo atrás do meu, não me permitiu cumprir o meu propósito. Ainda fechei os olhos. Mas se consegui dormir foi mesmo durante uns escassos minutos e já bem perto do fim da nossa viagem.

 

Já depois de “despejados” do autocarro aprontam-se os últimos preparativos para a grande Corrida. São as idas às Casas de Banho para encher os “cantis” ou despejar alguns extras “orgânicos”. E é também a fase em que reencontramos algumas caras conhecidas. Cada um fala dos seus objectivos para a prova e do que tem feito ultimamente ou do que virá a seguir.

 

Alguns atletas aquecem por si. Outros acompanham uma monitora que os guia ao longo de um conjunto de exercícios de aquecimento dos músculos e das articulações.

 WP_20160403_09_41_30_Pro.jpgWP_20160403_09_41_30_Pro.jpg

É então que decido introduzir uma inovação nesta minha participação. Recorrendo ao WhatsApp, plataforma móvel para a troca de mensagens e fotografias muito popular entre os mais jovens e não só, vou dando notícias em directo sobre a minha prestação. O primeiro “post” é feito mesmo ali dentro do Parque de Campismo de Martinchel.

 

WP_20160403_09_44_20_Pro.jpg

“Está quase. A ver se este ano corre melhor.”

“Vai correr com certeza. Boa Prova. Responde-me a minha filha.

 Vou dando notícias, respondo eu.

 

Às dez da manhã inicia-se finalmente a aventura. O nervosismo já se tinha apoderado de todos. Todos nós ansiávamos pelo começo.

 

Atrás do carro da organização somos encaminhados até à Barragem do Castelo de Bode. São algumas centenas de metros a partir das quais nos tinham reservado cerca de oito quilómetros “novinhos” mas para “partir as pernas”, como nos tinha avisado um elemento da organização. Não é que fosse um percurso extremamente duro e com escaladas como tínhamos presenciado nos últimos anos. Mas o facto de ser em “sobe e desce” é o suficiente para causar grandes mazelas, principalmente de índole muscular.

 

Sem encontrarmos aquelas escaladas só transponíveis com o auxílio de cordas, e quiçá de um ou outro empurrão do atleta que nos precedia, mesmo assim ainda nos foram reservados alguns troços bem íngremes e feitos em fila indiana.

WP_20160403_10_22_16_Pro.jpg

Depois de devidamente “preparados” nestes primeiros oito quilómetros encontramos o Rio Nabão por um lado diferente do das anteriores edições. A chuva faz a sua primeira aparição acompanhando – nos ao longo de um “single trek” estreito, sinuoso e bem acidentado. Todo o cuidado é pouco para evitarmos uma queda de consequências mais gravosas. A ponte militar feita por barcaças é incontornável e serve de “passagem para a outra margem”. Estamos na foz do Rio Nabão. Poucos quilómetros mais à frente entramos no Trilho do Rio Zêzere que nos levará até Constância, local onde se inicia a prova do Trail 25K. É uma fase de algum repouso e beleza tendo sempre presente, ao nosso lado esquerdo, um dos maiores afluentes do Rio Tejo.

 

A certa altura avistamos um enorme viaduto. É o tabuleiro da A23. E um pouco mais à frente vemos a igreja e as primeiras casas da simpática vila de Constância, conhecida pela prática da canoagem e por ser a foz do Rio Zêzere.

 

Chego ao Ponto de Abastecimento. Aproveito para pegar no meu telemóvel e enviar mais uma mensagem via WhatsApp para tranquilizar os meus apoiantes.

WP_20160403_13_33_54_Pro.jpg

“Já cheguei a Constância. Só faltam 21. Estou bem.”

“Continuação de uma boa prova. Boa! Bom resto de Corrida.” (respondem-me)

 

A minha família acompanhava-me e torcia por mim com palavras de incentivo.

 

Faço as contas e verifico que afinal faltava um pouco mais do que os vinte quilómetros anunciados. Mas não fez mal.

 

Até ao próximo Ponto de Abastecimento repito o caminho dos últimos anos. Ao longo do Rio Tejo reina a calma, só ouvindo o barulho da água e de algum pássaro que transita pela zona. Num misto de areia com algumas pedras ensaio entrar em passo de corrida para tentar recuperar algum do tempo perdido para trás. Concentrado na minha missão aproximo-me de uma atleta que cumpria esta prova pela primeira vez. Aliás nunca tinha mesmo feito uma corrida tão longa. Do alto da minha experiência nos Trilhos do Almourol tento animá-la dizendo que o pior já tinha passado. A certa altura alguém me toca no ombro. “Amigo essa menina é a minha namorada.” Respondo-lhe que não faz mal pois sou casado e tenho a minha mulher à minha espera. “Eu estava a brincar. Eu gosto muito dela e julgo que ela também gosta muito de mim. Mas é só minha amiga e mais nada.”

 

Estamos numa fase mais de descompressão e de recuperação para o que ainda nos falta. Em Tancos temos mais um Ponto de Abastecimento. Avisam-nos que na próxima paragem, e se chegarmos a tempo, aguarda-nos um belo petisco: Porco no espeto. Animado com esta notícia parto de imediato enquanto os meus companheiros de corrida ficam a alimentar-se e a deliciarem-se com uma “mini” bem fresquinha.

 

Algumas centenas de metros mais à frente tenho a visita surpreendente de uma cãibra no quadricípede da perna esquerda. Mau. O fantasma do ano passado aparece no meu pensamento. Perante a minha momentânea incapacidade, alguém da organização avisa-me que ainda estou perto de um ponto no qual posso desistir. Não, vou lutar até ao fim. Dou algumas massagens e meto novamente na boca uma pastilha ISOSTAR com cálcio e potássio. A partir deste ponto não vou mais correr até me sentir mais recuperado. Felizmente que as maiores dificuldades desta fase final do percurso foram eliminadas.

 

Calmamente chego ao penúltimo Ponto de Abastecimento. “Ainda há Porco no espeto, pergunto?” Felizmente que sim. Pego numa sandes e vou à procura de uma cerveja. Mas também é tempo de colocar mais um “post” no Whatsapp.

 

“Porco no espeto, acompanhado de uma mini. Só faltam 11,5 Km.”

 

Um elemento da organização disponibiliza-se para me tirar algumas fotos que servirão para ilustrar esta fase da minha aventura.

WP_20160403_16_32_12_Pro.jpgWP_20160403_16_32_22_Pro.jpg

 Recebo várias mensagens um pouco desorganizadas (no WhatsApp isto é normal).

 

“Já chegaste? Boa !!! Correu bem??? Ainda não acabou. Está num abastecimento (responde a Catarina ao Gonçalo). Ah okok. Falta muito?”

 

Esta última mensagem já não teve resposta da minha parte pois entretanto já tinha partido para atacar os últimos quilómetros. Sinto-me bem. Parece que as cãibras recolheram às “boxes”. Ao atravessar uma estrada informam-me que faltam dois quilómetros para o próximo abastecimento e seis para o final. Encho-me de ânimo e de confiança para esta fase.

 

Último abastecimento. Servem Caldo Verde num copo de plástico. Ainda me preparo para enviar mais uma foto. O cansaço e a ânsia de chegar ao fim dificultam os movimentos. E o meu telemóvel também não ajuda. Mesmo assim consigo registar este momento.

IMG-20160403-WA0001.jpg

“Último Abastecimento. Caldo Verde para atacar os últimos 4Km.”

“Está quase … Okok. Força então.” É o incitamento final dos meus apoiantes. Não os posso deixar desiludidos.

 

A parte final da Corrida é feita de muita lama. Aqui e acolá atravessamos, ou caminhamos ao lado da A23. Já cheira a Entroncamento. Ao longo desta parte final encontramos “placards” com informação dos quilómetros que faltam percorrer. É a altura de passarmos algumas ribeiras e molharmos/refrescarmos os nossos cansados pés.

 

Entrada no Parque do Bonito. Sei que pouco falta para cumprir mais uma etapa dos Trilhos do Almourol. O piso é bom e sempre plano. Uma última dificuldade pela minha frente. Tenho de atravessar uma ribeira. Várias raparigas da organização estão ali para ajudar os atletas. “A vossa presença aqui deixa no ar algumas suspeitas. Estarão aqui para me verem cair? Ou será que este último obstáculo é mesmo difícil?”.

 

Orgulhosamente prescindo da prestimosa ajuda de tão simpáticas pessoas. Fica para trás aquele curso de água e, com a ajuda dos pés e das mãos, e só não foram também os dentes, alcanço o alcatrão da estrada que me conduzirá até à meta.

 

A meta está próxima. Sempre a correr galgo as últimas centenas de metros.

IMG-20160404-WA0002.jpgA desilusão do ano passado ficou definitivamente resolvida.

 

Entro no Pavilhão e vejo a linha da Meta. E vejo também, para meu espanto e com uma profunda alegria, três personagens dispostos a testemunharem o fim de mais uma aventura: a minha filha Catarina, o meu Genro Pedro e o “mais que tudo” neto Afonso.

 

IMG-20160403-WA0003.jpg

 Neste momento passa para eles a responsabilidade de informarem, via WhatsApp, a conclusão desta Maratona.

 

Foram mais de oito horas e meia sempre em actividade. A minha pior marca de sempre nos Trilhos do Almourol. Mas foi seguramente a edição o em que me diverti mais e cheguei em melhores condições. Na memória fica a conclusão da minha primeira participação nos Trilhos do Almourol. Nessa altura não só cheguei profundamente exausto, quase não conseguia falar, como afirmava que não mais voltaria a esta prova. Agora já só penso na edição de 2017.

 

Vou ao meu carro buscar o saco com a roupa para tomar banho. Ainda pensei em almoçar primeiro e só depois tomar banho. Mas a razão ultrapassou o coração. Depois de um retemperador duche regresso à zona da meta para deglutir a merecida refeição misto de almoço e de lanche. A Catarina regressa a casa. O Pedro fica comigo e assume as funções de motorista. Até me sentia em condições para conduzir o meu carro. Mas assim foi melhor. Poderia descansar e até dormir um pouco. Durante o caminho de regresso a casa aproveito para pôr a conversa em dia. Falo à minha mulher e aos meus colegas Tartarugas. A satisfação era total. Não me canso de enaltecer as virtudes dos Trilhos do Almourol.

 

Como comentário final quero salientar dois aspectos muito importantes. Em primeiro lugar a edição deste ano foi bastante mais rápida do que as anteriores. O vencedor conseguiu um tempo ao nível de uma Maratona de Estrada. Menos de quatro horas, e ainda por cima com as dificuldades desta corrida é obra. Por outro é digno de realçar que um nosso anterior colega dos nossos tempos em que ainda jogávamos Badminton, José Lopes de seu nome, terminou os Trilhos do Almourol num brilhante terceiro lugar. PARABÉNS.

 

E para o ano há mais.

 

Atletas que concluiram a prova: 245

Vencedor: LUÍS FERNANDES (Trilhos dos Templários - Green Roc) - 3:55:54

 

CARLOS GONÇALVES (Dorsal Nº 246)

Classificação Geral: 232º - Classificação no Escalão M55: 9º

Tempo Oficial: 8:33:21/Tempo Cronometrado (Tempo do Chip): Não disponível

Tempo médio/Km: 12m:13s  <=> Velocidade média: 4,91Km/h (*)

 

(*) - O Tempo médio/Km e a Velocidade média foram calculados em função dos tempos cronometrados (tempo do chip)

 

Calendário para o Mês de Abril

  • 3 - Trilhos do Almourol (Entroncamento) - 25/42 Km
  • 3 - Corrida dos Sinos (Mafra) - 15 Km
  • 10 - Corrida do SLB (LIsboa) - 10 Km
  • 17 - Cork Trail Running (Coruche/Erra)  - 23 Km
  • 17 - Estafeta Cascais/Lisboa - 20 Km
  • 24 - Montejunto Trail - 38 Km
  • 25 - Corrida da Liberdade (Lisboa) - 11 Km
publicado por Carlos M Gonçalves às 00:41

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