Segunda-feira, 18 de Abril de 2016

CORK TRAIL

Pouco passa das oito horas da manhã quando chego a Vila Nova da Erra. Não se vê vivalma. Apenas alguns cães preenchem as ruas desertas desta pequena freguesia do Concelho de Coruche. E o que faço eu sozinho nesta vila quando a maioria da população ainda se encontra a dormir e ainda mal o Sol começou a aquecer o ambiente? Venho participar pela primeira vez no Cork Trail. Sendo o Trail Running uma modalidade em crescendo nos últimos anos, cada a vez a oferta é maior.

WP_20160417_08_02_46_Pro.jpgWP_20160417_08_06_45_Pro.jpgWP_20160417_08_07_34_Pro.jpg

Sigo as setas estrategicamente colocadas nos cruzamentos e bifurcações e vou à procura do Secretariado para levantar o meu dorsal. Finalmente encontro sinais de vida. Elementos da Organização local e do Trilho Perdido estão já a tratar dos preparativos para um evento que se quer que esteja pronto a horas e isento de falhas. As mangas insufláveis colocadas na zona da partida começam a tomar forma e a ficarem de pé.WP_20160417_08_09_42_Pro.jpg

Sem qualquer precipitação recolho o meu “Kit” de participante composto pelo dorsal e por uma camisola técnica de cor azul alusiva à prova na qual vou participar. Estão previstas três provas: duas corridas nas distâncias de 13 e de 23 quilómetros e ainda uma caminhada sem carácter competitivo. No meio dos poucos atletas que entretanto vão chegando encontro uma lenda viva das corridas de cariz popular, sejam de estrada ou de montanha. A Analice Silva está à conversa com um outro atleta contando-lhe algumas histórias e peripécias da sua já longa carreira de atleta. Ela é um exemplo de que correr não tem idade limite. Só é necessário querer e ter muita força de vontade. A Analice debruçava-se sobre as suas corridas de 100 ou mais quilómetros. E em resposta à minha pergunta fiquei a saber que a vou encontrar, uma vez mais, no Ultra Trail de São Mamede, na mítica e desafiante distância de cem quilómetros.

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Afasto-me deste convívio e regresso ao meu carro para me preparar para a minha prova. Aproveito para enviar uma mensagem via WhatsApp aos meus familiares. “O que faço aqui no meio do nada? Pronto para o Cork Trail em Vila Nova da Erra. E não estou sozinho (em referência à presença da Analice)”.

 

Uma última ida à Casa de Banho e dirijo-me para o local da partida. Encontro dois colegas de trabalho que vão participar na prova mais curta. Atendendo a que estamos numa zona pouco acidentada interrogamo-nos sobre como irá ser o percurso. Talvez seja muito fácil e sem grandes obstáculos. Mais tarde viemos a verificar que estávamos profundamente enganados. A ainda bem pois certamente que voltarei no próximo ano. Este é o segundo Trail organizado pelo Trilho Perdido e no qual participo. Depois dos Trilhos da Costa Saloia, de boa memória, pela segunda vez cumprem-se as minhas expectativas. Seguramente que tenho de acompanhar com maior atenção a oferta de corridas patrocinadas por esta organização.

 

Alguns minutos depois as nove e meia é dada a ordem de partida para o Trail Longo, antecedida do habitual “briefing”. A corrida começa muito rápida. Quando passamos pela placa do primeiro quilómetro temos oportunidade para ler um comentário bem motivador: “O primeiro quilómetro foi de aquecimento. Aprecia a paisagem Ribatejana”. Aliás vou constatar que ao longo de todo o percurso as placas quilométricas são invariavelmente acompanhadas de frases bem sugestivas.

 

Desde trilhos largos e suaves até “single treks” mais exigentes, vamos encontrando de tudo um pouco. O Cork Trail está a corresponder aquilo que me trouxe até estas paragens. Aqui e ali vou passando por outros atletas temporariamente mais lentos. Mais à frente cabe-me a mim ser ultrapassado. É assim mesmo. Uma das grandes vantagens das provas de Trail é que não estamos a correr contra o tempo nem para recordes. O grande objectivo é desfrutar ao máximo a corrida e apreciar a paisagem. Numa corrida de trilhos há tempo para tudo. Pensa-se muito. Em certa altura dou por mim a pensar que aquelas maleitas que me acompanham durante toda uma semana de trabalho, como seja aquela irritante tosse alérgica que periodicamente marca presença, desapareceu como que por magia. Devo estar no Paraíso. E aproveito os momentos em que corro sozinho para começar a construir algumas das histórias que vão, mais tarde, enriquecer a minha crónica do blogue das LEBRES E TARTARUGAS.

 

Depois de um “sobe desce” começam as primeiras escaladas. Sem elas certamente que a corrida não teria qualquer piada. Não participamos num Trail só para correr. Aliás Trail é mesmo isto. Após ultrapassar um troço a subir mais exigente chego a uma zona mais plana onde posso voltar a arriscar correr um pouco. Bom, penso eu. MAU. Porque a seguir vem uma daquelas descidas radicais onde todo o cuidado é pouco para manter a minha integridade física com um mínimo de qualidade. E acabo por concluir que subir é sempre melhor do que descer. Numa subida temos a Mãe Gravidade a ajudar-nos a controlar o nosso movimento. Se estamos mais cansados, e o declive é mais exigente, basta abrandar e recuperar um pouco. Nas descidas mais acentuadas transforma-se em MADRASTA empurrando-nos para o abismo e para o descontrolo total.

 

Quilómetro vinte. “Tens pela frente um quilómetro sempre plano”. Tranquilizador. Era mesmo disto que estava a precisar. A andar ou a correr estes mil metros parecem ter voado. Pudera. Entra-se no Trilho dos Moinhos. Durante algumas centenas de metros vou acompanhar uma zona de canais de rega. Avisto um sinal triangular de perigo com a frase “Attention”. O que me esperará? Suspiro de alívio quando o único perigo era o de ir atravessar uma estrada. Feito mais um controlo no meu dorsal por elementos da organização avisam-me que tenho seguir ao longo de uma ribeira mas em sentido contrário à corrente. Aproveito a água fria da ribeira para arrefecer os meus músculos que já começavam a acusar o desgaste da prova. Volto a reentrar numa zona de canais de rega tendo mesmo de passar por cima das comportas de seccionamento dos circuitos da água. Olho para o meu Garmin e vejo que só falam cerca de mil e seiscentos metros para o final. Descanso pois já falta pouco. Pois, mas em tantas centenas de metros ainda é possível muita maldade. Alguma ainda vou encontrar. Mas o pior já tinha ficado para trás.

 

Quando falta cerca de um quilómetro para o final começo a contagem decrescente. Subitamente, e sem que me tivesse apercebido, uma trailista mais atrasada consegue apanhar-me e até mesmo ultrapassar-me. Tento reagir e recolocar-me junto a ela. Percebo que as suas forças também já não são muitas. Vou animando a minha companheira de ocasião informando-a de que já falta pouco. Entramos em Vila Nova de Erra. São só quinhentos metros. Já só faltam quatrocentos, trezentos, duzentos. E entramos nos cem metros finais. Pois mas no relógio da colega já se tinham atingido os vinte e três quilómetros. Curva para a esquerda e mais à frente, após virarmos à direita, avistamos finalmente a meta.

 

Foi mais uma prova de trail a juntar ao currículo. E foi também mais um conjunto de peripécias “para mais tarde recordar”. Recorro novamente ao WhatsApp” para informar a minha família de que tinha terminado. Entretanto também já tinha no telemóvel uma mensagem do outro Tartaruga Carlos que tinha participado na Estafeta Cascais/Lisboa na modalidade de corrida em linha.

 

Antes de regressar a casa ainda vou atacar a excelente bifana a que tinha direito, bem acompanhada por uma divinal e bem fresquinha cerveja.

 

Atletas que concluiram a prova: 122

Vencedor: TIAGO ROMÃO (Gafanhori) - 1:42:53

 

CARLOS GONÇALVES (Dorsal Nº 161)

Classificação Geral: 104º - Classificação no Escalão M50: 13º

Tempo Oficial: 3:24:11/Tempo Cronometrado (Tempo do Chip): 3:24:08

Tempo médio/Km: 8m:53s  <=> Velocidade média: 6,76Km/h (*)

 

(*) - O Tempo médio/Km e a Velocidade média foram calculados em função dos tempos cronometrados (tempo do chip)

 

Calendário para o Mês de Abril

  • 3 - Trilhos do Almourol (Entroncamento) - 25/42 Km
  • 3 - Corrida dos Sinos (Mafra) - 15 Km
  • 10 - Corrida do SLB (LIsboa) - 10 Km
  • 17 - Cork Trail Running (Coruche/Erra)  - 23 Km
  • 17 - Estafeta Cascais/Lisboa - 20 Km
  • 24 - Montejunto Trail - 38 Km
  • 25 - Corrida da Liberdade (Lisboa) - 11 Km
publicado por Carlos M Gonçalves às 00:14

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